29 setembro 2012

A luz que encanta


Espiritualidade suficiente para entender que a vida continua em outro lugar? Falta fé para confortar? Aprender a aceitar? 

Não estou tentando responder a nenhuma dessas perguntas e sim me perguntando qual é a que mais se adequa à mim neste momento.
Qual momento? O de quando você se vê diante de uma vida que foi retirada fatalmente.

Minha cabeça e meu coração entendem quando alguém morre de velhice ou de alguma doença que não há mais como lutar contra, mas fatalidades ou falecimentos inesperados? Não, eles ainda não conseguem compreender. 
Não precisa me dizer que essas coisas acontecem porque é da vontade de Deus, pois eu não desacredito nisso, pode ser, pode não ser. Só que não adianta, no início (ou sempre) é difícil aceitar e o tempo me ajuda a crer que aquela vida se foi, independentemente dos planos de Deus, mas me conformar é difícil. É, me sinto pouco evoluída para isso, ou melhor, nada evoluída. 

Dia 28 de setembro de 2012, ao mesmo tempo que eu tremia a cada vez que alguém vinha do seu quarto, mais esperança eu sentia quando meus olhos alcançavam os de sua mãe. Confesso que acho tudo isso estranho ainda. Por que eu acho estranho? Vamos lá..

Jonathan Phelippe, 19 anos, filho único. Janaína (sua mãe) e Paulo Henrique (seu tio) são filhos de Naca (meu padrinho e do meu irmão) e de Tia Zana (madrinha do meu irmão), não temos parentesco nenhum.
Graças ao meu pai, que é amigo do meu padrinho desde bem antes de eu nascer, hoje temos o privilégio de termos esses tios e primos, mesmo que emprestados, e que são tão queridos quanto os da família de sangue.
O mais curioso disso é que não os via há anos, muitos anos mesmo. Acho que não via a Jana desde que eu tinha uns 10 anos, talvez, ou menos.




Apresentados. 

Há cerca de 22 dias atrás, não sei com precisão, o Jonathan foi atropelado e internado em estado grave, mas teve uma boa melhora segundo informações que tive, chegando à estabilidade e quase saindo do CTI. 
Ontem, dia 28, fui visitá-lo pela 1ª vez, mas cheguei ao hospital e seu quadro havia piorado consideravelmente.
Quando me deparei com essa informação o nervosismo, inevitavelmente, tomou conta de mim, mas ao encontrar sua mãe, Janaina, e abraçá-la, ouvi-la falar do filho com tanto amor e orgulho, senti tanta energia boa, tanta esperança, tanto desejo de "vitória" pela luta que acabara de se iniciar, que em outro estado seria impossível ficar. A esperança tomou conta de mim.
Se em qualquer momento da minha vida eu me questionei sobre a minha fé, com certeza eu não duvidei da sua existência naquele momento. Nunca, em toda a minha vida, eu pedi tanto pela vida de alguém. Nunca.
Não sei, mas acho que aqui começo a identificar a minha estranheza na situação..

Pouco contato eu tive com o Jonathan, na verdade eu não sei se o conheci pessoalmente, pois me recordo apenas do meu padrinho e o Paulo falando dele, do sorriso que abriam, o brilho dos olhos e o orgulho ao falarem. Sempre falando do seu talento para tocar instrumentos e para a música no geral, dos sambas que ele fazia, projeções, de como ele e Janaina pareciam irmãos e não mãe e filho, enfim, para mim era o reflexo de muito amor que havia naquela família. Outra coisa que sempre me fez pensar nele, mesmo sem o conhecer, era o fato dele ter nascido no dia 9 de março, ou seja, fazia aniversário no mesmo dia que o seu avô Naca, meus primos Victor e Carlos, duas conhecidas, Jeane e Antonia. Sempre pensei nele, conhecendo ou não.

Então, apesar da falta de contato, eu desejei com todas as minhas forças a sua recuperação. Ver o Paulo desolado num canto do hospital, com o olhar bem longe, me cortava o coração e me fazia chorar, ficar sem ar.
Aí eu via a Jana com aquele brilho nos olhos, que por algumas vezes parecia que estava caído e se perdendo, mas que se arregalavam para falar do filho, reavivava minha esperança e tudo que eu sentia e queria que acontecesse. Sabe quando você abraça alguém com a intenção de dar toda a sua força e energia positiva para ela? Pode ter certeza, cada abraço que dei foi com essa intenção. Ainda disse à Jana que nos veríamos em outras circunstâncias, todos juntos e felizes, pois eu realmente não acreditava em outra coisa. 
Infelizmente as coisas não caminharam como esperávamos, o tal plano de Deus não foi o mesmo que desejamos, mas nem estou aqui para questionar isso. 

Chorei ao ver os amigos chorarem, chorei ao ver a família chorar, chorei ao ver o seu avô conversar com ele o tempo inteiro, chorei ao ver o desespero de sua mãe pedindo para que ele acordasse, chorei com as orações, chorei com as músicas, chorei ao ver um dos amigos jogar uma paleta para ele e continuo chorando, agora.

Por que as coisas precisam ser assim, hein? Não quero respostas de ninguém, pois ninguém as tem de fato, ninguém. O que acredito é que cada um tem sua maneira de encontrar um conforto, só que eu ainda não encontrei a minha. Estranho dizer isso de alguém que eu sequer pude conhecer, mas...

Há tempos não me sentia assim, tão triste. Sinto tanto por essa família, mas tanto, tanto, tanto que nem sei como colocar isso em palavras. 
Uma pessoa tão jovem, cheia de vida, do bem, que, segundo Tia Zana mesmo disse, veio para unir uma família depois de alguns problemas.. muito difícil de acreditar, muito. Nossa, quantas pessoas foram se despedir do Jonathan?! Difícil contabilizar, tinha MUITA gente, mas muita gente mesmo! Muita gente não acreditando no que estava vendo, muita gente declarando o quanto orgulhoso e agradecido estava por ter tido a oportunidade de conviver com ele...
E eu, por tudo que há de mais sagrado, pedindo o tempo inteiro para acordar daquele pesadelo e que ele fosse apenas meu, estivesse se passando apenas na minha cabeça, na de mais ninguém. Na verdade continuo com essa sensação, de que nada disso é real.





Por mais que a gente tenha se afastado por um tempo, acho que quando a gente gosta o sentimento permanece.
Lembro que a Jana me disse ontem: "Ai, Paula, como está sendo bom te ver."
Ela não faz ideia do quanto foi bom ouvir isso, apesar de tudo e naquele momento. Lamento muito por esse reencontro não ter acontecido antes e por outras razões. Lamento demais, mesmo.
Desde que a revi minha vontade foi de não me afastar mais, mas agora é tudo tão delicado que será necessário deixar o tempo comandar isso...


Não sei como estarei quando reler isso tudo novamente, se eu ainda terei as mesmas perguntas do início ainda comigo ou não, mas o fato é que hoje nada disso é compreensível para mim. Na verdade eu nem sei se deveria vir aqui e dizer tudo isso, em respeito à família, sabe? Eu poderia escrever e não colocar nada aqui, mas precisava de "ouvidos" para o meu desabafo. 
Quanto às fotos? Só estão aqui porque a Jana disse para todos ouvirem: "Peguem na internet, peguem, tem várias."
Uma única coisa nisso tudo me deixou "bem" e orgulhosa, o quanto ele era querido e a certeza de que nunca será esquecido, ficou claro que ninguém quer que isso aconteça. 

Mas.. 
No fundo, no fundo o que eu queria mesmo era que acontecesse como há, mais ou menos, um mês atrás aconteceu comigo. Liguei para minha mãe e com um bolo na garganta, já pronta pra chorar, eu falei: 
"Bom dia, mãe. Tive um pesadelo, mas foi tão ruim. Sonhei que Jessica havia morrido.. nossa, horrível, nem consigo falar."
E aí eu comecei a chorar. Em seguida minha mãe:
"Bom dia, filha.Não fica assim, fica tranquila, Paula... é saúde para ela."
Depois de alguns minutos a ligação acabou e  tudo ficou bem de novo.
Isso que eu gostaria que acontecesse... Queria acordar amanhã, ligar para minha mãe, contar esse pesadelo, tirar essa angústia, encerrar a chamada e que tudo ficasse bem de novo. Pode ser? 

E, assim, essa postagem nunca teria existido, essas palavras, essa dor.




"Cada um tem a luz que encanta e seduz
Não desista de amar
Esse teu sorriso guardado no rosto
Precisa brotar

Água de chuva eu sei que não sobe ladeira
Barco pesado encalha na beira do mar
Se não tá, é melhor se ligar

Vai na paz, Deus é mais
Nós é nó na madeira
Sua estrela um dia vai ter que brilhar..."